Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

entrevistas

Presidente da Emater-Pará, Williamson Lima


















Quais os principais desafios da Emater-PA?

O principal desafio da Emater-Pará é expandir o atendimento. Ter condições de trabalhar em comunidade rurais às vezes desassistidas, interagir mais com quilombolas, ribeirinhos, pescadores, indígenas e assentamentos.

Também queremos ampliar nossa participação nos projetos de assentamento da reforma agrária. Tanto que já estamos firmando convênio com as três superintendências regionais do Incra (Belém, Marabá e Santarém), com verbas específicas em torno de R$ 30 milhões de reais.

Nós também estamos em fase de oficialização de um novo convênio com o MDA, provavelmente de R$ 15 milhões, para atendermos melhor famílias assentadas e não-assentadas. Desses R$ 15 milhões, 50 % são exclusivamente para investirmos na infra-estrutura da Emater. Nossa meta é chegar a 2010 renovando 100% da frota novos carros, novos barcos, novas voadeiras, novas motos – para as equipes técnicas conseguirem chegar às comunidades.

É um desafio nosso. Vencer esse desafio só está sendo viável porque temos o reconhecimento do governo federal pelo trabalho que executamos no estado. Nenhum governo daria dinheiro para uma empresa pública se essa empresa não tivesse capacidade de responder às demandas do campo. Nós somos um dos órgãos de assistência técnica e extensão rural que mais dão resposta positiva para o MDA. É por isso que o volume de recursos para a Emater-Pará só tem aumentado.

Como explicar essa evolução da Emater-PA?

O sucesso do trabalho tem a ver com a estratégia de gestão do governo do estado, com o compromisso deste governo e com o engajamento dos profissionais, que assumem a responsabilidade prática da relação com o agricultor familiar. Nosso esforço é mostrar para a sociedade como a agricultura familiar é importante. Temos clareza do objetivo para o desenvolvimento do Pará, por meio do campo.

Nós, os extensionistas, somos guiados pelos princípios agroecológicos, encaminhando idéias e elaborando projetos baseados na responsabilidade social e ambiental. É uma preocupação do governo do estado e dos extensionistas inserir o Pará, cada vez mais, nesse processo de combate ao desmatamento, ao trabalho escravo, aos crimes ambientais. Nossa estratégia é combinada entre os agricultores e suas organizações, movimentos sociais do campo, Sagri (Secretaria do Estado de Agricultura do Pará), assistência técnica, agentes financeiros, pesquisadores, instituições do setor.

Tanta conversa é necessária porque os projetos da Emater não podem ser simplesmente bonitos ou ecológicos – eles têm que ter viabilidade econômica, não podem dar prejuízo para o agricultor: o crédito não pode ser uma corda no pescoço do agricultor, o crédito vem para resolver o problema do agricultor do ponto de vista econômico e social; o crédito tem que alavancar a qualidade de vida do agricultor, e não o contrário.

Hoje o Pará ainda tem uma taxa de inadimplência (no pagamento do crédito rural) muito grande também por causa da desorganização na elaboração dos projetos.

Então esse também é um dos grandes entraves da assistência técnica?

É o gargalo. Por isso que no ano passado planejamos novas estratégias para a prática do Plano Safra 2008/09. Seminários territoriais foram realizados em todas as 12 regiões de integração estabelecidas pelo governo do estado, para que discutíssemos os apls (arranjos produtivos locais) junto com as próprias comunidades. A partir das potencialidades dos recursos naturais e do interesse dos agricultores, cada território decidiu quais apls deveriam ser o alvo das políticas de fortalecimento.

Esse modelo de consulta comunitária repercute imediatamente no aumento da produção. Porque não adianta um projeto ser elaborado para uma certa comunidade em um certo município, depois se elaborar outro completamente avulso em outra comunidade, distante 100 km...os projetos não podem ser elaborados avulsos, de forma aleatória; os projetos têm que ser interligados; têm que alcançar, direta ou indiretamente, toda a comunidade. Não é só plantar. Temos que pensar que, depois da colheita, será necessário transportar, comercializar. A comunidade inteira tem que estar preparada e interessada naquela produção.

Por exemplo: a cultura principal da região tocantina do Pará é o açaí, por isso lá faz muito mais sentido trabalharmos os recursos do Plano Safra para fortalecermos o arranjo produtivo do açaí. Os agricultores trabalhando sob essa lógica, governo do estado e agricultores agindo em conjunto, projetos com mais volumes de recursos, produção coletiva, escoamento garantido, mercado certo. Será um apl realmente estruturado.

Claro que mirar em apls específicos não exclui o trabalho da Emater em relação a alguns outros. A Emater continuará elaborando projetos para outros apls. Nesses seminários territoriais, foram definidos 14 apls principais. O carro-chefe posso dizer que é o da segurança alimentar, que agrega as culturas alimentares: arroz, mandioca, milho, enfim.

Tem a ver, também, com a crise mundial dos alimentos, com altas cotações. Precisamos trabalhar em todas as regiões o apl da segurança alimentar no sentido de aumentarmos a produção de mandioca, milho, feijão, para darmos conta pelo menos da demanda interna do próprio Pará.

A tentação do lucro com biocombustíveis e com a pecuária pode desviar o agricultor familiar da cadeia produtiva dos alimentos?

Acho que não é uma questão de disputa. O Pará tem terra para todas as vontades cultivadoras e para todo tipo de produção. O que está faltando, na verdade, é o que o governo do estado já está fazendo: discutir com os trabalhadores rurais e suas organizações um processo produtivo que permita maior diversificação de cultivo.

É bem verdade que, em algumas sub-regiões do Pará – sul, sudeste -, por exemplo, o gado é muito forte como tradição. Mas hoje se percebe que a diversificação é a melhor alternativa, tem muito mais resultado para o agricultor, inclusive do ponto de vista financeiro.

Nós não somos contra o gado, muito pelo contrário. Só que, para a agricultura familiar, o gado não pode ser a atividade principal. O agricultor familiar tem 20 hectares, 30 hectares... eu não conheço nenhum agricultor familiar que mudou de vida significativamente por meio do gado. Até porque, no estado do Pará, a qualidade genética do gado leiteiro é considerada baixa, aquém da média nacional – fator que precisamos melhorar e que temos trabalhado, no apl do leite. Hoje 70 % do leite produzido no Pará vêm da agricultura familiar. O leite requer muita infra-estrutura.

O que eu quero dizer que o Pará tem muita área para a produção de alimentos e para todo o resto saudável. Para se ter gado, para novas culturas agrícolas, para o biodiesel, não seria necessário se derrubar uma árvore. Os produtores é que precisam saber usar melhor as áreas. É por isso que o governo tem investido tanto em pesquisa, em tecnologia.

Existem muitas áreas degradadas, extensas, que estão paradas. Essas áreas precisam ser recuperadas, mecanizadas, para novos plantios, para pasto. É preciso pensarmos o desenvolvimento do estado centralizado na preocupação com a questão ambiental.

O caminho entre a tecnologia e os agricultores familiares é difícil?

O governo federal e o governo estadual têm se empenhado em levar essas novas tecnologias, esses novos conhecimentos à agricultura familiar.

Até o fim deste ano, a Emater inaugurará dois laboratórios de solo: um em Marabá e outro em Bragança, justamente para atender os agricultores familiares, indicando vocações do solo, nível de esgotamento, condições de recuperação, de recomposição do solo. A baixa produção geralmente está associada à situação do solo. Nós trabalhamos para dar oportunidade para que os agricultores familiares possam fazer, gratuitamente, análise de solo, e para que saibam como recuperar a terra. Acho que esse é o caminho.

Fora isso, investimos muito na capacitação dos agricultores em todas as áreas e também no fortalecimento das organizações sociais. Este ano, a propósito, assinamos um convênio com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Foi a primeira vez em que essa parceria se oficializou. As duas instituições entendem que só é possível difundir conhecimento e tecnologia para o campo por meio da Emater, porque a Emater tem capilaridade em todo o interior, é um laboratório vivo da agricultura familiar.

Nós estamos implantando no estado mais de 300 Unidades Demonstrativas de todas as culturas e criações.

Na prática, entre tantos programas de governo em nível federal, estadual e municipal; e entre as várias instituições públicas que compõem o setor agrícola e fundiário, qual o papel da Emater?

Cada órgão tem seu papel, sua atribuição. Ninguém se mete na atividade do outro, só colabora, faz parceria. Os órgãos se completam, no sentido de otimizar recursos e ações. Hoje o governo do estado tem um plano integrado para promover qualidade de vida no campo e aumentar a produtividade da agricultura familiar.

Nosso papel é fazer assistência técnica e extensão rural no estado do Pará, trabalhando com a Sagri no fomento, com o Iterpa (Instituto de Terras do Pará) quanto à regularização fundiária, com a Sema (Secretaria de Estado de Meio Ambiente) na questão ambiental, entre outros. Somos muitos no governo, mas todos afinados. Não existe desvio de atribuição, nem o desperdício da sobreposição de ações.

Aline Dantas de Miranda
Assessoria de Comunicação Emater-PA

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