Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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Entrevista | Rita de Cássia Lima

Exemplo de determinação

Nesta quinta-feira, o mundo comemora o Dia Internacional da Mulher. A data está associada ao episódio ocorrido em 1857, em uma fábrica de produtos têxteis de Nova York, quando 130 operárias morreram carbonizadas devido a um incêndio provocado. O grupo entrou em greve a fim de exigir a redução da jornada diária de 16 horas para 10 horas e melhores salários. De meados do século 19 até o início do século 20, as mulheres não cessaram de promover manifestações em defesa dos seus direitos. Em 1910, em uma conferência internacional, na Dinamarca, as operárias nova-iorquinas foram homenageadas com a consagração do 8 de março como Dia Internacional da Mulher.

Desde então, muitos avanços ocorreram no sentido da equidade de gênero. Mas muito ainda falta para que a igualdade prevista nas legislações seja real. Até hoje, as mulheres têm remuneração inferior à dos homens. Nessa luta incessante muitas fizeram a diferença e ainda se destacam pela persistência e dedicação às atividades que realizam.

Hoje, 8 de março, a ASBRAER rende homenagens a todas as mulheres e, em especial, às extensionistas rurais cujo trabalho é fundamental na promoção dos agricultores e agricultoras familiares. Seria impossível nomear todas. Assim, escolhemos a abnegada Rita de Cássia Lima, superintendente de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural de Alagoas, como exemplo dessa luta incessante e diária de todas as extensionistas do país. Por mais de 10 anos, Rita voltou inteiramente suas energias e inteligência à reconstrução da Emater de Alagoas, movida pelo sentimento comum a todas as extensionistas de ver um Brasil rural desenvolvido, sem fome, sem miséria, beneficiado pelos serviços de assistência técnica e extensão rural públicos, gratuitos e de qualidade.

Rita de Cássia foi vitoriosa. No fim de 2011, o Governo de Alagoas formalizou a recriação da Emater. Ela participava da Assembleia Geral da ASBRAER, em Belém do Pará, quando teve suas expectativas confirmadas por meio de um telefonema. Uma alegria incontida irradiou emoção em todos os representantes das entidades ali reunidos. Rita dividiu a conquista com todos e atribuiu parte da conquista ao apoio recebido pelas instituições amigas que sempre a apoiaram na busca obstinada desse objetivo. Em entrevista exclusiva ao site da ASBRAER, ela fala um pouco dessa trajetória e do contentamento de ter recuperado a Emater Alagoana.

Na última assembleia da ASBRAER, realizada no Pará, a senhora teve um momento muito alegre, que foi a decisão do Governo de Alagoas formalizar a Emater. Como foi essa luta para restabelecer a Emater no estado?

— Realmente foi um momento feliz. É uma luta de 10 anos, desde a desestruturação dos serviços de assistência técnica e extensão rural que o estado de Alagoas sofreu.

Era um serviço da Secretaria de Agricultura?

— Não, nós éramos uma empresa de assistência técnica e extensão rural, uma Emater. E, 10 anos atrás, infelizmente, os últimos governos não acharam que era importante esse serviço, embora tenhamos 120 mil familiares demandando assistência técnica e extensão rural. Alegavam que não tinham condições de manter o serviço, com dívidas trabalhistas altíssimas não só com os funcionários da empresa de assistência técnica e extensão rural, mas também com os de outros órgãos. Optaram pelo caminho mais rápido: a extinção da empresa. Extinguiram a Emater que prestava esse serviço ao homem do campo, reconhecido pela qualidade, quantidade e presença desses técnicos ao lado dos agricultores.

Durante essa década, como o agricultor familiar foi atendido em Alagoas?

— Foi muito complicado. Com a extinção da empresa, uma parte, ou melhor, uma equipe da antiga Emater foi para a Secretaria de Agricultura, onde foi criada uma superintendência, pela qual hoje eu respondo, a Superintendência de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural. Ficamos com um serviço a desejar. Muitos profissionais que eram da Emater e estavam em fase de se aposentar pediram sua aposentadoria, e outros foram embora para prestar serviço em outras instituições. Assim, ficou uma equipe mínima. Para se ter uma ideia, a superintendência hoje não tem mais do que 10 técnicos. Então, veja a diferença. A antiga empresa tinha, em média, 200 funcionários na capital, dentro da estrutura central. Com a superintendência ficamos com as estruturas regionais — são nove no total —, com equipes bem reduzidas, com mais dificuldades para atender o homem do campo, para levar as políticas públicas, as quais o agricultor familiar tem direito, e com a superintendência que é um grupo de 10 pessoas.

A recriação da Emater de Alagoas é um momento histórico, porque há esperança de reestruturarmos todo o serviço de assistência técnica e extensão rural. Aliás, a reestruturação tem que ocorrer de forma geral. Ela tem que ocorrer desde a reestruturação das instalações físicas, de equipamentos, renovação da frota de veículos, computadores — e, principalmente, o que a partir de agora será a nossa grande batalha — até a realização de um concurso público para recompor os quadros de funcionários. Esse foi um momento histórico criado por esse governo.

Qual é a emoção que a senhora sente a partir desse resultado tão aguardado?

— Primeiro, acho, foi o reconhecimento do próprio governo do compromisso da equipe que sobreviveu ao terremoto. Você imagina chegar para trabalhar e encontrar sua empresa toda desmontada e todo o acervo material e todo o capital humano no meio da rua. Ela foi extinta desse jeito. Não houve tempo sequer para você arrumar suas coisas, suas gavetas e seus birôs. O governo anunciou a extinção e, em tempo recorde, mandou desocupar o prédio. Hoje a gente sente a sensação de dever cumprido, pelo fato de ter resistido e lutado por esse serviço que é importante para o agricultor familiar. O compromisso que essa equipe conseguiu manter, do entusiasmo de lutar e convencer o governo do Estado que esse serviço precisava voltar mais forte, renovado, uma nova Emater. Aliás, ela vai ter o nome de fantasia Emater, para você ver como era forte a marca da Emater 10 anos atrás. Ela volta com o nome Emater porque é assim que nós somos reconhecidos no campo. Apesar de estarmos na Secretaria, o agricultor vê o técnico como sendo da Emater. Vamos voltar com a política nacional de ATER norteando, as ações, com um olhar para as metodologias participativas renovadas, nas quais o agricultor seja o protagonista da ação, o técnico tenha o papel de orientador e mobilizador, mas que a decisão seja tomada com o agricultor familiar, ele tendo vez e voz.

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