Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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Entrevista | Amarildo José Brumano Kalil

Presidente da Emater-MG
Emater-MG concentra atuação em busca da sustentabilidade

BELO HORIZONTE (21/05/2015) - Desafio é o que não falta para o novo presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), Amarildo Kalil. Ele tem a tarefa de dar um novo rumo à empresa, que atende mais de 400 mil famílias de agricultores familiares, com unidades em 789 municípios. Ou seja, está presente em cerca de 93% dos municípios do Estado.

As mudanças, segundo Amarildo, são necessárias para adaptar a ação dos extensionistas rurais – como são conhecidos os técnicos da empresa – às exigências do mundo moderno. Sem deixar de lado o aumento na produção de alimentos, o momento, diz, é de atenção máxima à sustentabilidade. “Nós, da Emater-MG, temos a obrigação de orientar os produtores nessa mudança de paradigma e mostrar que é possível produzir de forma sustentável”, afirma.

Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Viçosa, com mestrado em Engenharia Agrícola, Amarildo Kalil iniciou a carreira profissional na Emater-MG, no município de Bom Jesus do Galho, no Leste de Minas. Além do contato direto com os produtores, conquistou experiência na gestão de equipes como gerente, coordenador técnico e, mais recentemente, no cargo de superintendente de Planejamento, Gestão e Finanças da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais. Amarildo Kalil foi nomeado em março de 2015, pelo governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, para a presidência da Emater-MG.

O que os produtores rurais podem esperar da nova gestão da Emater?

Amarildo Kalil: Estamos preparando a Emater para o futuro. Precisamos mudar o paradigma em busca da sustentabilidade. A Agricultura tem que continuar produzindo em grandes quantidades, para atender às necessidades da população, para garantir a segurança alimentar. Mas atualmente os produtores têm uma nova demanda que é a prestação de serviços ambientais. Portanto, é necessário produzir, com qualidade, mas também preservar a biodiversidade. Com especial atenção à conservação dos recursos hídricos. O nosso desafio é inserir a dimensão ambiental na atividade rural.

A empresa está bem preparada para esse desafio?

Amarildo Kalil: Sim. Nosso maior patrimônio são os profissionais da empresa. E é nele que vamos investir permanentemente. Estamos em contínuo processo de aprimoramento. No segundo semestre deste ano, terá início o programa de pós-graduação em Extensão Ambiental para o Desenvolvimento Sustentável, com a participação de 400 técnicos de todo o Estado. Esta ação está sendo realizada em conjunto com o Ministério da Ciência e Tecnologia e a Universidade Federal de Lavras. É um curso customizado para os profissionais da Emater-MG.

Paralelamente, precisamos renovar nosso quadro de pessoal, com a realização de um novo concurso público. O último que realizamos foi em 2004. Nesses dez anos, muitos profissionais já saíram e, com o Programa de Desligamento Voluntário (PDV), muitos estão se aposentando. É fundamental aliar décadas de experiência dos profissionais do quadro atual da Emater-MG com os novos conhecimentos trazidos por profissionais mais recentes.

Além disso, investiremos continuamente em infraestrutura, como computadores, automóveis, materiais de modo geral, para realizar nosso trabalho diário. Considerando que estamos presentes em 789 municípios, não é fácil fazer com que essa estrutura funcione adequadamente. Para isso, contamos com uma relação muito forte com as prefeituras municipais. Comparo a Emater-MG a um transatlântico. No início, gasta-se muita energia para começar a mover, para quebrar a inércia. Depois, fica mais fácil seguir o rumo.

Haverá mudanças na forma dos técnicos atuarem?

Amarildo Kalil: Precisamos reestruturar a estratégia da ação extensionista. Não podemos ficar focados apenas nos produtos. Geralmente o agricultor familiar produz quatro a cinco produtos em sua propriedade e precisa de uma assistência mais eclética. Então a orientação será atuar por programa e projetos, construindo uma rede interna e externa de colaboradores. A questão é mais complexa do que apenas focar no produto. Um produtor de leite, por exemplo, precisa de orientação na atividade pecuária, no trato dos animais e na qualidade do leite, mas vai também precisar de apoio para o processamento, para ter um bom queijo, e depois de apoio para chegar ao mercado. É fora da porteira que aparecem os resultados. Em vez de produzir e depois ver como vai vender, é mais proveitoso saber o que o mercado quer e então produzir. Por isso, é tão importante a nossa rede de coordenadores regionais e estaduais, para dar suporte aos técnicos nos municípios, que estão concentrados nas ações do dia-a-dia junto aos agricultores.

Há alguma ação específica para estimular os produtores a serem mais sustentáveis?

Amarildo Kalil: Temos o Programa de Adequação Socioeconômica e Ambiental como uma de nossas prioridades. Neste programa, é utilizada a metodologia ISA (Indicadores de Sustentabilidade em Agroecossistemas), que nos permite fazer um diagnóstico das propriedades em três dimensões: social, econômica e ambiental. Com base no resultado desse estudo, é possível elaborar um plano de adequação, caso a propriedade não atenda aos requisitos de sustentabilidade. A Emater-MG já tem mais de 400 técnicos capacitados na aplicação do ISA nas propriedades. Agora vamos introduzir o Zoneamento Ambiental e Produtivo, o ZAP, que é uma metodologia oficial do Estado, desenvolvida pela Secretaria de Agricultura, em conjunto com a de Meio Ambiente. O objetivo é diagnosticar de forma rápida, e com baixo custo, as condições ambientais e produtivas de uma bacia hidrográfica.

E quais são os benefícios para os produtores rurais?

Amarildo Kalil: A metodologia ISA permite fazer uma ampla avaliação sobre as condições gerais da propriedade, desde o nível de escolaridade dos trabalhadores, a renda obtida pela atividade, a disponibilidade e qualidade da água, a preservação de áreas de reserva legal, etc. Por exemplo, se foi identificado que as áreas de preservação permanente (APP) estão com alto índice de desmatamento, então é possível fazer um plano para regularizar a situação.

Nos últimos meses, muito se falou da falta d´água. Como a Emater-MG contribui para reduzir o impacto da crise hídrica?

Amarildo Kalil: Em todas as regiões do Estado, os técnicos orientam sobre como usar melhor os recursos hídricos e como garantir a conservação do solo e da água. Existem várias técnicas que já são adotadas e recomendadas, como a construção de bacias de captação de enxurradas – as chamadas barraginhas; terraços de nível; recuperação e preservação de matas ciliares.

Temos ainda os projetos específicos. No Projeto de Irrigação do Jaíba, no Norte do Estado, atendemos mais de 1,3 mil pequenos produtores no uso mais eficiente dos sistemas de irrigação. Além disso, mais de R$ 30 milhões estão sendo investidos na recuperação do rio São Francisco, com proteção de nascentes, recuperação de matas ciliares e de topo de morros, terraços de contenção, barraginhas e readequação de estradas rurais.

Como introduzir novas tecnologias no campo?

Amarildo Kalil: Com base na confiança. Já há pesquisas mostrando que a renda dos produtores que recebem assistência técnica é bem maior do que os que não têm. São pequenas alterações nos processos. Com a orientação do técnico, o produtor obtém maior eficácia e conquista uma renda melhor para sua família. Os técnicos, muitas vezes, tornam-se amigos, até conselheiros, membros daquela comunidade. Eles são recebidos de braços abertos porque os produtores sabem que eles levam coisas boas. Com confiança entre técnico, produtor e comunidade conseguimos resultados excelentes.

A Emater-MG pretende ampliar as parcerias ?

Amarildo Kalil: As parcerias são valiosas e essenciais para o nosso trabalho. Entre as mais importantes estão aquelas com as prefeituras e câmaras municipais. Também temos uma relação estreita com secretarias de Estado, ministérios, agentes financeiros, sindicatos, associações e movimentos sociais. Mas estamos sempre em busca de aprimorar e ampliar este relacionamento. Nos últimos meses, já promovemos dois encontros na sede da Emater-MG para ouvir nossos parceiros. O primeiro foi com representantes de ministérios e secretárias de Estado, com objetivo de identificar as oportunidades de cooperação com a Emater-MG. O outro foi com movimentos sociais, sindicais e associações para saber o que eles esperam do nosso trabalho. Baseado nestes diálogos que estamos promovendo, iremos criar uma agenda de ações da assistência técnica e extensão rural que atenda aos grandes temas e desafios da agropecuária mineira.

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