Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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Entrevista - Nilton Cosson

Nilton Cosson, engenheiro agrônomo, formado pela Universidade Federal do Amazonas, mestre em Extensão e Desenvolvimento pela Universidade Rural de Pernambuco, fez especialização nos Estados Unidos em Extensão Participativa e MBA em Gerenciamento de Equipes pela Fundação Getúlio Vargas, estando Secretário de Estado de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar desde 2007, responsável pelo desenvolvimento das políticas públicas direcionadas a cerca de 40 mil famílias de agricultores familiares em todo o Estado do Acre. A região tem suas peculiaridades geográficas que a diferencia sobremaneira do restante do país. Nesta entrevista fala sobre o desafio de aprofundamento e ampliação da extensão agroflorestal embasada no paradigma agroecológico.





Secretário de Estado de Extensão
Agroflorestal e Produção Familiar do Acre

Quais são os principais programas e projetos que são disponibilizados para o agricultor familiar acreano?

O Governo do Estado do Acre, na busca de desenvolver ações para a efetivação do desenvolvimento sustentável, um dos grandes desafios para a gestão socioambiental dos últimos dez anos, tomou a decisão de integrar as alternativas sociais, produtivas e ambientais em prol da produção familiar.

Para tanto lançou em 2008 a Política de Valorização do Ativo Ambiental Florestal. Esta política está alicerçada em dois grandes eixos: o Plano de Recuperação de Áreas Alteradas e o Plano de Valorização do Ativo Ambiental Florestal. O primeiro visa consolidar as áreas já desmatadas com inserção de práticas mais sustentáveis, que incluem a recuperação de áreas (com uso de roçados sustentáveis, sistemas agroflorestais, sistemas silvipastoris e uma pecuária sustentável) e plantios florestais, visando criar florestas plantadas. O segundo eixo tem no programa de Regularização do Passivo Ambiental Florestal e no Programa de Certificação das Unidades Produtivas Familiares Sustentáveis o objetivo de consolidar as alternativas de produção sustentável nas áreas desmatadas das propriedades familiares combinadas com a preservação da reserva legal e áreas de preservação permanentes, tornando-as propriedades agroflorestais.

O serviço estadual de assistência técnica e a extensão agroflorestal têm o programa de certificação de propriedade como orientador da atuação em duas dimensões: na Segurança e Soberania Alimentar e nas Cadeias Produtivas de Produtos Estratégicos para o Estado. Para tanto estabeleceu uma Rede de ATER onde foram definidos princípios e diretrizes que sob a supervisão da SEAPROF deve aumentar a oferta dos serviços de ATER com qualidade.

Qual a sua avaliação dos trabalhos de assistência técnica e extensão rural desenvolvidos pela Seaprof?

Desde 2004 que a assistência técnica e extensão rural vem passando por um processo de mudança, que culminou na extensão agroflorestal.

Historicamente as comunidades que compõem esta categoria de uso da terra têm requisitado do poder público, ações que possam incluí-las no processo de geração de renda e soberania alimentar, mas que também considerem as demais variáveis relacionadas às questões socioambientais. Esta foi a luta de ícones dos movimentos sociais como Chico Mendes e Wilson Pinheiro nas décadas de 70 e 80. O apelo à necessidade de implementar desenvolvimento econômico, considerando as limitações ambientais, se constituiu num dos principais focos de atuação do Governo do Estado do Acre.

Esta nova proposta de Extensão Agroflorestal para o Acre foi construída de forma coletiva e considerou a rica experiência acumulada de décadas do serviço de ATER, o que provavelmente justifica o avanço que estamos conseguindo junto aos produtores familiares.

Este serviço educativo para o desenvolvimento sustentável vem implementar os novos varadouros (estratégias de atuação) e consolidar "um jeito novo de caminhar" (Thiago de Melo), ou seja, produzir e gerar renda aos produtores familiares levando em consideração sua participação e importância na sociedade, além de contribuir com o ambiente com um bem atual e futuro de todos.

Como as políticas públicas para o setor rural estão sendo aplicadas no Acre?

O Zoneamento Econômico e Ecológico (ZEE) do Acre é o instrumento básico e referencial para o planejamento e gestão do processo de desenvolvimento, este documento permite identificar as potencialidades de cada região e orientação dos investimentos do governo de acordo com sua vocação. Partindo do ZEE o Governo do Estado, em parceria com os movimentos sociais comprometidos com essa questão, construiu o Zoneamento da Produção Familiar. Este trabalho permitiu a identificação das cadeias produtivas de produtos estratégicos para o Estado e o potencial agrícola de cada região.

Aliada e como conseqüência aos estudos citado, o Governo institui em parceria com toda sociedade a Política do Ativo Ambiental Florestal que visa em seus programas e projetos beneficiar em 9 anos todas as 40 mil famílias de produtores familiares visando um processo de inclusão social a partir da consolidação de sistemas de produção sustentável.

Como o senhor avalia a produção da agricultura familiar na economia acreana?

No Acre, as novas políticas são sinais inequívocos de uma correlação de forças que favorece o extrativismo e a agricultura familiar. Surge um espaço real, com amparo em políticas públicas, para a afirmação de um modelo de desenvolvimento sustentável, baseado na cultura própria de populações extrativistas e em sistemas produtivos familiares que harmonizem benefícios econômicos, sociais e ambientais. Mas novamente retornamos a proposta de extensão agroflorestal.

Seguindo essa proposta os planos de desenvolvimento levam em conta não só as bases ecológicas da agricultura sustentável, como também os princípios da economia ecológica e solidária. É nesse contexto que o processo de industrialização, por exemplo, que vem sendo desenvolvido no Acre tem como base o sistema econômico que denominamos de Público-Privado-Comunitário (PPC). Nesse sistema o produtor familiar não é mero entregador de matéria-prima e sim um dos atores principais do processo de desenvolvimento, sendo inclusive proprietários em parte ou no todo de empreendimentos, com podemos verificar na cadeia da castanha do Brasil e de aves.

Qual o maior desafio para a Seaprof como entidade de ATER oficial?

Consolidar o processo de certificação das propriedades tornando-as sustentáveis em parceria com todas as entidades que participem da Rede de ATER, realizando assim um serviço de ATER que tenha sintonia com a vocação de cada região e ao mesmo tempo possa ter diretrizes e princípios embasado na agroecolgia aceitos por todos.

Terezinha Moreira
Assessoria de Comunicação Seaprof-AC

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