Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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"Assistência técnica pública, gratuita e exclusiva para a agricultura familiar"

Alberto Ercílio Broch, 55 anos, eleito para dirigir a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), em 2009, tem uma larga experiência no mundo sindical. Antes de estar à frente da maior instituição sindical do país e da América Latina, ele exerceu os cargos de secretário de Política Agrícola e, por dois mandatos, foi vice-presidente. Gaúcho, ele fala orgulhoso do crescimento da instituição nos últimos anos. “Crescemos muito e ampliamos a nossa atuação, hoje, voltada para a construção de políticas públicas que vão além da reforma agrária e da política agrícola, mas abrangem a juventude, a terceira idade, a saúde e a educação no campo.”

A sua eleição foi mais um dos muitos momentos históricos da Contag, criada há mais de 40 anos. As mudanças políticas no cenário rural e a heterogeneidade ideológica dos associados e entidades que compõem a Confederação levaram os líderes a decidir pela desfiliação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do Partido dos Trabalhadores. A Contag congrega mais de 4 mil sindicatos de trabalhadores rurais, filiados a 27 federações e que representam cerca de 25 milhões de associados.

Hoje Broch dirige uma Contag que busca se relacionar com as forças políticas atuantes no campo, a fim de dar consequência ao amplo projeto de desenvolvimento do mundo rural brasileiro, que contempla as mais básicas e legítimas aspirações dos trabalhadores rurais. Saúde, educação, lazer, terra, renda, emprego são elementos que permeiam os projetos da instituição.Com exclusividade, Broch falou para o site da ASBRAER, entidade com a qual vem estreitando uma parceira voltada ao avanço da agricultura familiar e à construção de um modelo sustentável de desenvolvimento.

Como o senhor avalia o relacionamento da Contag com a ASBRAER e quais são as suas expectativas?

— Na verdade, essa é uma relação que perdura há muito tempo. Construímos pautas com a extensão rural. No último período, essa aproximação aumentou. A Contag defende uma assistência técnica pública, gratuita e exclusiva para a agricultura familiar. A ASBRAER tem sido a voz das empresas estatais do setor. Queremos retirar do plano da utopia um desenvolvimento rural que respeite as diferentes culturas e biomas do nosso país.

O senhor é favorável à criação de um órgão que centralize os recursos e orientação políticas às entidades estaduais de assistência técnica e extensão rural?

— Vemos com bons olhos essa proposta. Não se trata de ressuscitar a Embrater, mas criar algo que centralize os grandes temas. Hoje, a extensão rural está dispersa em vários órgãos do governo federal, que não se comunicam. Seria positivo que houvesse uma instância que desse as diretrizes de ação para a assistência técnica e a extensão rural.

No próximo mês, a Contag realizará o Grito da Terra Brasil. Na pauta, os trabalhadores rurais reivindicam a realização da Conferência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural. O senhor acredita que a partir desse encontro sairá uma proposta para a criação de um órgão que centralize as diretrizes políticas para as ATER?

— A conferência está prevista no Condraf. Colocamos o tema na pauta dessa 17ª edição do Grito da Terra para reforçar a necessidade e importância de realiza-la. No entanto, acredito que desse amplo debate poderá surgir a criação desse órgão que centralizaria as diretrizes políticas para a extensão rural em nível nacional.

Uma das preocupações da presidente Dilma Roussef é o combate à miséria e à fome. Como o senhor entende que esse relacionamento mais estreito entre a Contag e a ASBRAER pode contribuir para a eliminação da fome e da miséria no país?

— Grande parte da pobreza do país está no campo. Esse problema não será superado apenas com o Bolsa Família. Está certo que, num primeiro momento, o programa é essencial porque as pessoas estão com fome. Mas é preciso que elas sejam inseridas no sistema produtivo, para que não fiquem dependentes desse programa. Quando abordamos essa questão, estamos falando também de segurança alimentar e soberania nacional. Precisamos estabelecer políticas públicas que permitam às pessoas terem renda no campo e a extensão rural e a assistência técnica têm importante papel nesse processo junto com os agricultores familiares.

O que o senhor espera do próximo Grito da Terra, um momento que tradicionalmente o movimento sindical rural concentra suas reivindicações e abre o debate mais denso com o governo federal?

— O Grito da Terra vem aperfeiçoando as pautas e, nessa edição, queremos aprofundar as políticas gerais para o campo. Não vamos nos restringir à política agrícola ou à reforma agrária. Querem ampliar o debate e as conquistas no que se refere à saúde, educação, assalariados, ao desenvolvimento rural sustentável. Vamos discutir o plano de safra 2011/2012 e, nesse aspecto, a assistência técnica é um ponto-chave. Trataremos também do Programa Nacional de Alimentação Escolar(PNAE) e Programa de Aquisição Alimentos(PAA), seguro agrícola e da necessidade de mais recursos chegarem à base. Hoje, quando a gente faz um balanço, percebe que a renda do agricultor familiar ainda é muito pequena e, às vezes, até insuficiente.

Em relação à reforma agrária, é preciso ampliar as metas e garantir qualidade para os assentamentos. No que se refere aos assalariados rurais, principalmente do setor sucroalcooleiro, é preciso também garantir a qualidade do emprego, discutir a reconversão e vários outros pontos que afetam a oferta de trabalho no meio rural. Outro ponto que nos preocupa muito é o jovem que vive no campo. Muitos não querem mais permanecer na área rural e migram para as cidades. É fundamental que consigamos estimular esse jovem a viver no campo, sob pena de ampliarmos as incertezas quanto ao futuro da agricultura familiar. Mas para que o jovem não troque o campo pela cidade é essencial dar a ele condições melhores de vida, que implica oportunidades de produção, educação, saúde, lazer etc.

Por Rosane Garcia/Asbraer

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