Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Assistência Técnica e Extensão Rural

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Entrevista com o Diretor-Presidente da Embrapa, Pedro Arraes

Presidente da Embrapa fala da integração entre Pesquisa e Extensão Rural
O Diretor-Presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Pedro Antonio Arraes Pereira é carioca, formado em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); com mestrado e doutorado em Melhoramento e Genética de Plantas pela Universidade de Wisconsin, Madison, Estados Unidos. Seu pós-doutorado em Genética Molecular e Marcadores Moleculares no Feijoeiro Comum foi concluído em 1996 na Universidade da Califórnia, Davis.









Acompanhe a seguinte entrevista:

Presidente, recentemente o Senhor Participou de uma discussão sobre a integração estratégica do ponto de vista institucional entre o sistema de Extensão Rural e a Embrapa. Qual o objetivo da Embrapa com esta integração?

A Embrapa está passando por uma nova reestruturação na transferência de tecnologias, e com o propósito de organizarmos de forma mais adequada esse processo foi criado recentemente o Departamento de Transferência de Tecnologia. A forma que encontramos para agilizar o trabalho realizado pela Embrapa foi por meio de serviços das redes de extensão rural. Por isso, se tornou indispensável uma boa integração com a Asbraer, por ela congregar toda essa rede pública.

O objetivo é propor melhoramentos na extensão para transformá-la em um serviço altamente qualificado. O Brasil exige um serviço de alto nível da extensão rural, e a Embrapa pode e vai contribuir para essa melhoria. Queremos atingir o pequeno, médio e grande agricultor familiar. Essa integração vai permitir retroalimentar o sistema do processo de pesquisa.

A Embrapa não pretende se tornar uma empresa de Extensão Rural, o que permitiu esta conceituada instituição eleger parceiros. Quem serão esses parceiros e o que o Senhor pensa sobre a parceria com a Asbraer?

É importante ressaltar que a Embrapa é uma empresa de pesquisa concentrada, em recursos humanos, recursos físicos e recursos financeiros. Diferente das empresas de extensão rural que são capilares e estão presentes em todas as regiões do País. Estamos em fase de organização interna na institucionalização dessas parcerias. Até o momento, conseguimos eleger alguns parceiros prioritários. Dentre eles temos a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), o Conselho Nacional da Agricultura (CNA), a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), e teremos ainda os ministérios da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA) e do Desenvolvimento Agrário (MDA).

A Asbraer é uma associação que tem muito a crescer. Acho que ela tem que ter mais representatividade, tem que ser completamente apolítica e tem que efetivamente defender a extensão rural de uma forma não territorial. A Embrapa, por não ter a intenção de se tornar em uma empresa de extensão rural, conta com a parceria da Asbraer, que congrega a rede pública de extensão rural e com outros órgãos públicos, para alcançar o processo de transferência de tecnologias que beneficiem os agricultores que atuam no campo.

Qual a sua expectativa em relação a esta aproximação com a Asbraer?

A expectativa é a melhor possível. Queremos usar a imagem forte da Embrapa no sentido de fortalecermos nossos parceiros. A Embrapa sozinha não pode tudo. A nossa expectativa é criar mecanismos e princípios que auxiliem nessa integração, por meio de parcerias institucionalizadas. Sabemos que essa mudança não vai acontecer da noite para o dia, mas esperamos que haja uma vontade política das parceiras e que possamos crescer, solucionando e resolvendo os conflitos que por acaso apareçam neste caminho.

Para que ambos os sistemas tenham mais eficiência em suas ações, quais os mecanismos que serão adotados pela Embrapa para integrar e valorizar a Extensão Rural?

Ainda não temos todos esses mecanismos postos à mesa. Estamos iniciando agora com a integração. Mas, é preciso destacar algumas questões. Para obtermos êxito é necessário existir o respeito mútuo, com a valorização da extensão rural pelos pesquisadores da Embrapa e vice-versa.

Temos que internalizar que a Embrapa com sua tecnologia e a Asbraer com a extensão rural são complementares. Muitas vezes a Embrapa é convidada a participar de programas que tem um componente muito forte de pesquisa e também da extensão rural, então se a Embrapa trabalha em conjunto com a Asbraer conseguiremos perceber qual o componente de qualquer programa e por quem deverá ser coordenado.

Precisamos fazer com que o nosso serviço chegue ao público alvo, mas para que isso ocorra é preciso ter uma capilaridade muito grande e quem tem essa capilaridade é a Asbraer e as outras instituições que serão nossas parceiras. Temos que unir forças! Os outros princípios ainda estão sendo discutidos em conjunto com a Asbraer e com os presidentes das empresas de extensão rural.

Vivemos o momento da era tecnológica e desenvolver uma rede conjunta dos sistemas de pesquisas e extensão rural pode parecer bastante complexo. Como a Embrapa percebe este fomento e como irá aplicar esta transferência de tecnologia de forma efetiva para o avanço da agricultura e da extensão rural?

Realmente, é muito complexo, e vai ser mais ainda, porque os problemas de pesquisa estão cada vez mais complicados. Hoje, temos que lidar com o componente ambiental, que já está entranhado na extensão rural. O bom técnico extensionista precisa estar treinado em indicadores de sustentabilidade, além dos econômicos e de plantio. Nós teremos que fazer programas de capacitação para melhorarmos o trabalho que já vem sendo desenvolvido pela Embrapa, Asbraer e suas associadas.

O eixo estruturante da pesquisa agropecuária no Brasil está ligado aos serviços prestados pela Embrapa, modelo vitorioso e reconhecido pelo país. Na outra ponta, temos o trabalho desenvolvido pela assistência técnica de extensão rural. Como a Embrapa pretende capacitar os profissionais de ATER?

Foi criado pela Embrapa um Centro de Estudos Estratégicos para Agropecuária Tropical Sustentável (Cecat) e está sendo montada por esse Centro toda uma rede de capacitação, não somente de tecnologias, mas também de gestão e uma série de outros cursos.

Uma das idéias da Embrapa é montar junto com a Asbraer um curso de capacitação de líderes para que possamos expandir. Uma boa oportunidade é o programa desenvolvido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) chamado Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), com foco em uma agricultura que diminua a emissão de gás carbônico. Este programa tem todo um lado de fomento que tem muito mais a ver com a extensão rural do que com a pesquisa. É um novo mundo que requer efetivamente uma extensão rural ágil e bem capacitada.

A sociedade brasileira, seus representantes políticos e dirigentes sabem que grande parte do progresso da agropecuária brasileira se deve ao trabalho primoroso da Embrapa. O que seria necessário para que a grande massa de agricultores familiares, incluindo os assentados da reforma agrária, possam ter acesso ao arsenal tecnológico adotado pela Embrapa?

O grande avanço tecnológico foi fruto da Embrapa e do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), que envolve todas as empresas estaduais de pesquisas. Segundo dados do último censo do IBGE, existem cerca de 480 mil estabelecimentos rurais que correspondem por 75% da renda da nossa agricultura. Provavelmente, esses estabelecimentos possuem extensão rural privada, o que facilita quando precisam de assistência tecnológica, eles já sabem o que querem quando procuram a Embrapa, seja no Brasil ou fora.

Já outros 900 mil estabelecimentos, são responsáveis por mais ou menos 15% da renda bruta da agricultura brasileira, isso comprova que eles necessitam fortemente de ajuda da extensão rural e falta conhecimento sobre novas tecnologias.

Nossa meta para os próximos cinco anos é passar para o primeiro nível esse grupo de agricultores. São 3,3 milhões de produtores rurais que corresponde por 8% a 10% da renda bruta da agricultura brasileira. Entre estes, temos os assentados e os agricultores "marginais".

Neste último caso a extensão rural vai ter um papel fundamental, acredito que muito mais de assistência social. É necessário criar políticas de renda como o Bolsa Família e outros financiamentos para melhorar a condição de vida desses agricultores, inclusive aumentando sua auto-estima.

Para alcançar êxito e garantir a sobrevivência das entidades é preciso fazer um alinhamento institucional entre pesquisa e extensão. Neste aspecto, qual será o papel de cada um?

Hoje, a Embrapa vive um momento de "ouro" e é considerada a jóia da coroa do governo brasileiro. Mas não foi assim no passado. Já estivemos a beira da extinção e sem nenhum recurso. Agora, estamos na fase de brigar por nossos recursos, de mostrar a importância do trabalho que está sendo desenvolvido pela Embrapa.

A Embrapa está totalmente aberta para interferir de forma positiva nas ações que beneficiem o bom andamento dos trabalhos de pesquisa e extensão do país. O Brasil é plural e as empresas devem se adequar à esta realidade. Assim é possível avançarmos e ganhar mais terreno político.

A recente Lei da ATER amplia possibilidades de participação de entidades privadas na assistência aos pequenos produtores, inclusive, com financiamento público. Qual a posição da Embrapa sobre esta questão?

Não sei se a Embrapa tem uma opinião. Eu tenho a minha e não vejo problema nenhum com a nova lei. Estou viajando na próxima semana para Quirinópolis (GO) onde existe uma cooperativa de produtores que serve de exemplo. São aproximadamente 300 produtores de leite inseridos no programa de assistência técnica, que produzem uma média de 20 a 30 litros de leite por dia. São exatamente aqueles produtores que estão no último nível, ou seja, como a Embrapa vai ensinar um produtor que não tem ajuda da assistência técnica a implantar embrião, fazer inseminação? Não é possível. Cada técnico da empresa de assistência técnica local atende uma média de 20 a 30 produtores. Formou-se uma rede: tem um agrônomo da Emater que dá essa capilaridade para essa rede de técnicos agrícolas e eles passam para os produtores.

Se montarmos um esquema para melhorar a renda do produtor por meio da integração das empresas públicas em parceria com as empresas privadas seria possível realizar uma ação de remuneração para esses técnicos agrícolas, evitando, assim, alimentar uma rede de intermediários que existem no campo e que não ajudam quem precisa da maneira correta. Não basta apenas vender o produto, é necessário acompanhar o trabalho que é realizado na terra e prestar o serviço de capacitação.

No mês de junho, as fortes chuvas que caíram nos estados de Alagoas e Pernambuco, deixaram um rastro de destruição como jamais visto. Muitos de nossos colegas extensionistas que atuam nos municípios, também foram atingidos e perderam praticamente tudo. O que a Embrapa tem feito para ajudar esses estados?

A Embrapa deve ajudar os estados afetados encaminhando manivas de mandioca, banana, batata, batata doce, entre outros, para ajudar na reconstrução das lavouras. Abrimos, também, uma conta no Banco do Brasil para que os empregados da Embrapa, voluntariamente, façam suas contribuições em prol das vítimas das chuvas. Esse recurso será repassado para o Instituto Agronômico de Pernambuco (Ipa). O Ipa vai identificar quais são os extensionistas que foram atingidos para repassar as doações.

A Embrapa, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e com as entidades de Assistência Técnica e Extensão Rural, selecionou temas técnico-científicos que compõem o acervo específico das minibibliotecas criadas em 2003, com o propósito de atender às demandas de informação tecnológica para os extensionistas de cada região do País. Com isso essas minibibliotecas se tornaram um forte instrumento de apoio na capacitação dos extensionistas, bem como nas ações de transferência de tecnologia para os agricultores familiares. A Embrapa vai levar este projeto para frente?

O projeto já cresceu significativamente e tem dado certo. Provavelmente, no próximo ano, vamos fazer um levantamento sobre o real impacto das minibliotecas e como podemos melhorá-las. Eu não tenho um conhecimento in loco do que isso causa efetivamente. Acho que o projeto já existe há algum tempo e está na hora de fazer uma avaliação para saber como a gente pode aperfeiçoar esse programa. Inserir ele talvez dentro de um contexto maior, ou seja, não vai só a minibiblioteca, com ela vai o que mais for possível ser inserido dentro do contexto da nossa nova reestruturação.

As miniblibliotecas não podem estar separadas dos nossos programas de capacitação, e por ser um instrumento muito interessante não pode caminhar sozinha. Temos outro bom exemplo o Prosa Rural, que popularizou a ciência oriunda da Embrapa. Queremos popularizar cada vez mais a história da extensão junto com a da pesquisa. O MDA tem sido primordial, pois tem apoiado fortemente esta idéia. Usamos dinheiro público então precisamos mostrar a eficácia das nossas ações.

Joaquim Souza
Assessor de Comunicação
(61) 3274-3051
ascom@asbraer.org.br
www.asbraer.org.br

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